Faz um tempo que eu venho pensando nesse assunto, e dessa vez tomei coragem para expor.
Hoje eu vim aqui falar sobre assédio sexual.
Já falei disso algumas vezes, mas nunca de forma direta, detalhada, nem falando do que aconteceu comigo.
Não citarei nomes de ninguém, até porque isso já aconteceu a muito tempo e não quero constranger pessoas que também foram envolvidas indireta ou diretamente sem o consentimento delas.

O que é assédio sexual?
"O assédio sexual consiste numa manifestação sexual, alheia à vontade da vítima, sem o seu consentimento, que lhe cause algum constrangimento, humilhação ou medo. Assim, o assédio sexual pode ser tipificado como crime ou contravenção penal, dependendo da conduta do agente." Fonte: Estadão.

Dito isso, vim contar um caso que aconteceu comigo quando eu tinha cerca de 16 anos.

Certo dia, eu fui ao cinema com algumas de pessoas que frequentavam um grupo de uma instituição religiosa a qual eu frequentava. Todos bastante conhecidos, amigos a mais ou menos 3 anos, tudo normal. Entramos na sala de cinema, e o filme começou. Ao meu lado esquerdo, sentou minha irmã, e ao meu lado direito, sentou um homem recém casado na época que também participava desse grupo. Ao lado dele estava sentada a esposa.
Depois do filme ter começado, senti uma mão na minha coxa direita, achei estranho, mas ele poderia ter colocado ali sem querer, não sei. Afinal, ele estava sentado ao lado da esposa, ele não faria aquilo por querer. A mão dele permaneceu ali, imóvel, e eu, mais imóvel ainda, para que a mão dele não pudesse ir para algum outro lugar mais constrangedor. O filme acabou, saímos do cinema, fomos lanchar. Ele agiu de forma natural, conversou com todo mundo, inclusive comigo, como se nada tivesse acontecido. Então, deveria ser coisa da minha cabeça.

Tempos depois, esse mesmo homem começou a ter conversas estranhas comigo no chat de uma rede social. Achei um pouco suspeito, mas talvez ele só queria manter uma amizade. Ele era casado, dizia ser cristão, então eu poderia estar errada. Ele começou a me chamar para sair sozinha com ele, ir à praia ou ao cinema, só nós dois. Sempre pedia, no final da conversa, para que eu apagasse tudo o que a gente tinha conversado, eu sempre dizia que tinha apagado, apesar de não fazer. A partir daí, comecei a ver que eu não estava ficando louca. Ele estava sim me assediando.

Pensei que poderia tomar conta sozinha da situação. Fomos ao cinema novamente com aquele grupo de jovens, fiz de tudo para evitar, porém ele conseguiu sentar ao meu lado novamente, no mesmo esquema. Dessa vez, a mão dele se movia, e ia para lugares que eu não queria que fosse. Comecei a me movimentar de forma que eu pudesse me esquivar daquela situação, sem muito sucesso. Eu já disse diversas vezes aqui que sou extremamente tímida, e em acontecimentos como esse, eu não consigo agir, eu entro em pânico e não consigo me mover direito ou falar qualquer coisa.

Todas as oportunidades que ele tinha de ficar sozinho comigo, ele aproveitava para passar a mão em mim, na minha perna, nas minhas costelas, nas minhas costas...
Tentei lidar com a situação, mas isso se estendeu por mais de um ano. Até o dia que eu descobri que ele fazia isso com minha irmã, dois anos mais nova que eu, e com outra amiga minha. Sempre tive um instinto protetor em relação a minha irmã, e foi por causa disso que resolvi tomar alguma atitude. Conversei com ela e com minha amiga e todas falamos com nossos pais.
Meu pai resolveu que seria melhor falar com o líder da instituição, para que isso não virasse uma tempestade em um copo d'água de maneira desnecessária. O líder me perguntou se eu tinha provas do que tinha acontecido, e eu disse que sim. Então ele resolveu fazer uma reunião, onde meus pais estariam presentes, o homem casado em questão, os pais da minha amiga, minha amiga, eu e minha irmã. Eu e minha irmã preferimos não comparecer porque estávamos muito constrangidas.

Na reunião, o homem confessou o que tinha feito, chorou, disse estar arrependido, e foi "disciplinado" pela instituição, ou seja, foi condenado a estudar mais a bíblia e sair das lideranças as quais estava responsável. O líder da instituição ainda falou para o homem inventar uma desculpa (lê-se mentira) para dizer a mulher o motivo de não estar tão ativo na instituição como antes. A mulher dele não merecia saber, e ela era "braba" demais, poderia querer se divorciar.

No final de tudo isso, o homem parou de nos assediar, mas sempre me olhava de forma estranha, e nunca mais olhou nos meus olhos.
Mas, por que eu voltei com algo que me aconteceu a tanto tempo?
Recentemente descobri que esse homem assediou outras cinco meninas, e que todas elas tinham falado com o líder da instituição, porém ele nunca as levou a sério. O líder me pediu provas, mesmo sabendo que aquilo poderia ter sido real, e agiu como se tudo aquilo fosse novidade.
Também vi que existia uma certa proteção com algumas pessoas que frequentavam aquele espaço. Um assediador pode continuar frequentando aquele lugar, enquanto uma garota que escolheu namorar com um não evangélico teve que escolher entre a instituição e seu relacionamento, e foi excluída de forma extremamente agressiva.
Me peguei pensando em quantas outras meninas ele assediou, e se ele realmente estava arrependido ou só disse aquilo por causa da pressão a qual ele estava submetido naquele momento.

Se eu pudesse voltar atrás, eu tinha feito diferente. Não tinha procurado um líder religioso para resolver a situação. Tinha procurado a delegacia. Então, eu venho aqui, para te pedir, que se algo do tipo acontecer com você ou com alguém que você conhece, não se cale. Denuncie.

Tata.


Um Comentário

  1. Ficar imóvel parece ser a reação de algumas pessoas, eu por exemplo tbm fiquei. É muito difícil mesmo, e vc foi corajosa em expor.
    Parabéns pelo post. Mas hoje eu vejo que a saída é a denuncia. Apesar que no momento que acontece não conseguimos ser tão racionais.

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